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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saravá Bengola


(Saravá Bengola!)

Manaus-AM ,2010
Verão
Egolatria? Esquizofrenia? Ou um esvaziamento coletivo?
“Na Banguela não pode bater, na Iuna não pode cantar...”. Salve, salve mestre Bimba, o rei, o onipresente, onipotente, pai de todos nós.
Onde vai parar a Capoeira? Pois nos dias de hoje ela já está nos quatro cantos do mundo: escolas, universidades, projetos sociais, nas ruas, nas academias, e rumo às olimpíadas. A capoeira nasceu com ânsia de liberdade, uma luta, uma resistência, que figura na história do povo brasileiro. Mas, nessa pós-modernidade e neste consumismo selvagem e alienante, muitas tradições se perderam e os fundamentos estão sendo jogados ao vento, por muitos “mestres” e “entidades representativas”, desta arte afrobrasileira. Onde vamos parar? Na terra do nunca? Na roda do vale tudo? Onde tudo pode, tudo vale. Está virando um samba de crioulo doido.
A capoeira é a arte da gente. É alma do povo brasileiro, é metafísica, é patrimônio cultural e imaterial deste país; ela não pode estar sendo tratada de qualquer jeito, de qualquer maneira, demolindo suas tradições, seus fundamentos e ancestralidades.
Muitos falam que precisam evoluir, que precisam modernizar, mas é claro que sim. No entanto, existe uma diferença muito grande entre crescer e evoluir. Não se sabe, se o crescer é pra baixo, pro lado, crescer a barriga, crescer a bunda, mas evoluir são outros quinhentos meus amigos!
Nesta decadência atual de um esvaziamento coletivo, muitos capoeiristas que não sabem pra onde vão, porque veio e o que estão fazendo. Não sabem o que cantam, o que jogam e o que tocam. Pobres capoeiristas! Estão seguindo uma fila, um “mestre”, uma quimera, uma hierarquização do nada. Quem perde com tudo isso é só a capoeira.

Estamos assistindo uma espetacularização banal de pantomimas e sistematização de golpes vazios, em busca do nada. E muitos falam se o Mestre Bimba estivesse vivo, ele estaria evoluindo. Tenho certeza que o Mestre Bimba não estaria nesse abismo, pois a Luta Regional Baiana, é eficaz, objetiva e existe até hoje, ele é o cara!

Se muitos falam que não é angola e nem regional é um problema de cada um, pois para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer lugar serve.

Olhando essa capoeira pós-moderna e fazendo uma análise intrínseca da nossa arte, vejo que muitos capoeiristas estão perdidos, alienados, um mero fantoche, ao bel-prazer de pseudos mestres e instituições. São escravizados e seduzidos por uma ilusão, uma esperança do nada.
Viemos de vários navios, mas estamos no mesmo barco, dizia Martin Luther King. Vamos dar uma rasteira no ego, mestres! Vamos sair da caverna de Platão; vamos matar a egolatria grupal e do umbigo; vamos acabar com os conflitos corporais e vamos jogar na roda das ideias e ações em prol de uma capoeira de verdade, pois só assim seremos unidos e fortes para continuarmos apaixonados e enamorados por essa arte-luta afrobrasileira, guardando os seus fundamentos e tradições.

Precisamos refletir o que queremos deixar para as futuras gerações, pois eu não quero jogar e nem deixar a bengola, “a capoeira do nada”, da bunda no chão, do vazio, sem sentido (a angola da regional moderna).

A capoeira sempre foi e sempre será a arte que liberta das amarras do sistema alienante, não podemos esquecer quem somos e para onde iremos. É preciso ser forte e corajoso, de grande ousadia para poder lançar-se na busca da libertação, do espírito livre, do desprendimento, das coisas impostas verticalmente como verdades absolutas, por falsos mestres e entidades sem compromissos. Estão presos por uma “filosofia barata”, conceitos de ventos, costumes e crenças esquizofrênicas. Vamos acordar! Volte para o corpo, venha para luz!

A capoeira hoje não pode ser levada só pelo um ritmo de “bengola” e esquecer sua verdadeira essência. Onde estão o toque e o jogo de Iúna, Idalina, Amazonas...?

Quando Bimba tocava são bento grande da regional, que era um jogo forte, rápido e duro, depois vinha a banguela, mas hoje é diferente. Qual é o fundamento dessa capoeira de hoje? Joga o quê? Toca o quê? Se eles mesmos falam que não são regional e nem angola, mas tocam Bimba, cantam Bimba, falam de Bimba. É, Bimba ainda é água de beber e inspiração para muitos! Essa capoeira moderna não passa de uma neurose obsessiva, compulsiva e coletiva desta pseudo evolução da capoeira.


A capoeira está há muito tempo em crise, o que queremos mesmo? Graduações de cristais? Grão-mestres de ferro? Sistemas de grupos fechados? Enquanto o mundo está fazendo pontes, eles edificam muros. Penso que estamos perdidos no infinito, doentes e com sede na beira do rio , girando o rio e não conseguimos enxergar o rio. Espero que o atual capoeirista saia da sua armadura de ferro, das suas tensões musculares crônicas, das sombras, desse estado de ilusão.

“O inferno está nos outros...” disse Sartre. A capoeira está em transformação em burilamento, precisamos realmente despertar, fazer uma reflexão sobre o que queremos, o que faremos e para onde iremos? Porque forte mesmo é a capoeira! Verdade mesmo é a capoeira! Pois ela permanecerá e nós passaremos. Temos que seguir adiante olhando para o passado, respeitando as tradições e os fundamentos da capoeira com os pés muito fortes no presente para não perdermos o caminho, a nossa identidade, a nossa essência e os nossos valores e sermos verdadeiros guardiões desta arte-luta afrobrasileira.

Eraldo Gabriel (Mestre Beija-Flor)
mestrebeijaflor@hotmail.com

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